Mundo Folk Metal
CAP?TULO 1
A Retrete e a Cerim?nia
Markus Johansson, natural de Corroios, desejava mais do que nunca envolver-se no mundo fant?stico do duende encornado dos Korplikaani e bruxaria negra dos Finntroll. Manifestava as suas aventuras com a sua colec??o de bonecos do Conan na geleira. Num dia, aliado a esse pensamento infantil, cortou uma banana em forma de navio viking que servia para simular uma pilhagem a uma tribo de uvas que presumidamente situava-se algures no Norte da Alemanha. O ataque foi t?o brutal que cada caro?o foi arrancado e o rio de gelo passou a ser tinto. Contente com a vit?ria, Markus pegou no bravo bando de guerreiros e ligou uma m?sica qualquer de Turisas. Colocou cada um a celebrar no castelo da Lego enquanto mulheres extremamente maquilhadas da mesma companhia de brinquedos se sentavam no colo de alguns .
Satisfeito, foi ? casa de banho lavar as m?os. Mas enquanto pensava em si pr?prio de espada no ar e bandeira rasgada no topo de um precip?cio, ouve um borbulhar suspeito. Vinha da retrete e ent?o decidiu verificar. Levantou a tampa e era nada mais que a cabe?a de um duende irland?s que fez as honras de se introduzir.
- ?s a Alice e eu sou o Coelho, segue-me.
- Ok. - Markus nem hesitou.
Mergulhou para o fundo da retrete que brilhava em v?rias cores sem levar nada consigo. Por?m, pensou de imediato que portais para mundos m?gicos n?o costumam ser t?o peculiares visto que o seu corpo percorria os esgotos de Corroios ? velocidade do som.
Subitamente acordou entorpecido sobre um manto de folhas de Outono. A vis?o ainda n?o era l?mpida mas parecia estar num bosque em que as folhas caiam eternamente. As ?rvores curiosamente estavam simetricamente alinhadas e separadas por uma grande dist?ncia e o c?u era muito semelhante a uma aurora de tons mais escuros. O ar por?m, parecia comprimido a uma no??o de exist?ncia superior que fervilhava o seu sangue de adrenalina a cada passo. Os estalidos que por sua vez pareciam ser um acaso natural de um bosque, aumentavam. Todo o barulho, desde simples brisa de ar, era um suspiro de morte…
Subitamente, dois veados em lados opostos caminhavam para si de forma erecta. Seguravam um montinho de p?talas negras e demonstravam um sorriso cerrado diab?lico que ia de chifre em chifre. A eles, juntaram-se mais de uma dezena de pares. Todos enfileirados como que lhe a demonstrar o caminho a percorrer…e Markus assim o fez. Sempre que passava por um par, as p?talas destes eram-lhe atiradas sobre a cabe?a e logo de seguida dan?avam em rodopio s? com um casco apoiado. Uma tradi??o peculiar que lhe fez perder nos pensamentos sobre a simularidade da recep??o hawaiana e bailarinas de caixas de m?sica. Ainda tentou avistar ao pormenor a dan?a dos veados mas n?o percebeu se adiantou demasiado no terreno ou o cen?rio lhe tinha sido puxado como um len?ol. ? frente, um ar g?lido irrompeu-lhe pelos poros dentro e mostrava-lhe um horizonte que n?o se avizinhava f?cil. Montes cujos topos estavam esculpidos de bodes servis que tinham os bra?os entrela?ados e narizes que sopravam um nev?o.
Apesar deste cen?rio ?pico e estranho, Markus ainda demorou alguns segundos a olhar para tr?s perguntado-se se todas as fronteiras daquele mundo eram t?o cortantes como a que acabou de experienciar…
CAP?TULO 2
A Descida para o Cabedal
Ap?s muitos obst?culos que lhe arrefeceram o sangue, Markus encontra uma vila entre os montes cujas orelhas dos bodes servis a protegia do nev?o. Os habitantes n?o lhe prestavam aten??o e seguiam o seu caminho indiferente a tudo que os rodeava, como inconscientemente obstinados. O processo de trabalho naquela vila parecia-lhe opressivo embora n?o conseguisse identificar raz?o para tal. Todos estavam encardidos de um p? verde fluorescente nas m?os e a dado momento, eram substitu?dos por outros trabalhadores num edif?cio com formato demasiado pequeno para albergar todas aquelas pessoas. Markus decidiu ent?o investigar e deu por si na entrada de um t?nel que se estendia ao longo da descida dos montes. Aproveitou a ocasi?o e desceu sem hesitar, indo atr?s, do que era agora claro, mineiros que extraiam uma mat?ria esponjosa daquela cor berrante. Trabalhavam em sa?das adjacentes ao caminho principal de descida o que fazia crer que toda aquela preciosidade advinha do interior dos bodes servis.
A viagem demorou dias e se n?o fosse a generosidade de mineiros oferecer-lhe comida provavelmente n?o teria resistido. Percorrido o ?ltimo degrau, deparou-se com uma multid?o fren?tica e um barulho ensurdecedor. Milhares de trabalhadores (desde ca?adores de grokes a alfaiates de tecido r?ptil) levavam os seus produtos para os vender aos fornecedores. Estes depois distribu?am a uns estafetas que iam a monte de mamutes, tal como a sua carga. Era o lugar onde todo o com?rcio de bens necess?rios ocorria e cujo mundo n?o subsistiria se quebrasse. Por?m, inadvertidamente, os seus olhos encontraram um dos mineiros a segurar aquela mat?ria verde fluorescente e seguiu-o recinto fora. A?, percebeu que v?rios animais que eram usados como meio de transporte alimentavam-se dessa mat?ria enquanto que esperavam pelo regresso dos donos. Havia um que contrastava mais que os outros, por ser ?nica esp?cie, que era um cavalo com uma textura surreal de cabedal e manchas brancas esborratadas. Ali?s, era a mesma a ?nica esp?cie que Markus conseguia identificar do seu mundo.
- O que queres dele? - perguntou o que lhe era claramente uma mulher atr?s das suas costas.
Markus voltou-se para ela e ficou perplexo pela pouca roupa que usava, embora n?o fosse propriamente s? por causa do tempo.
- Nada…mas tens aqui belo animal. - sorriu.
A mulher ignorou as suas palavras, colocou a carga no dorso do cavalo e montou-o. Markus percebeu que embora a sua apresenta??o foi em tudo semelhante a um geek dos Dungeons & Dragons, a sua perman?ncia naquele mundo era-lhe hostil e qualquer contacto, por mais remoto que fosse, era vital. Colocou-se ent?o em frente ao cavalo.
- Por favor, n?o v?s. N?o sou daqui e preciso de ajuda.
- Ajuda?! - a mulher riu-se. - n?o sei como ? na tua terra estrangeiro, mas aqui se quiseres alguma coisa submetes-te a favores.
Markus somou a natureza da mulher e a cor do animal e tudo o que deu como resultado foi ele com uma ma?? na boca e um chicote a dilacerar-lhe as costas. Libertou-se desse pensamento, n?o porque quisesse, mas por uma quest?o de sobreviv?ncia.
- Que tipo…de favores?
- …mo?o de est?bulos e nem tenho bem a certeza se tens estofo para isso. - disse a mulher com um olhar condescendente.
- …que seja. - retorquiu Markus.
- N?o me fa?as perder tempo e conduz o teu animal atr?s de mim.
Markus engoliu em seco percebendo que ia ser provavelmente repreendido.
- Mas eu n?o tenho meio de transporte…
A mulher franziu o sobrolho e depressa saiu do cavalo. Fez sinal com a m?o como que manda esperar um c?o e desapareceu ao longe entre as v?rias caixas de bugigangas pertencente a alguns comerciantes. Depressa voltou com uma dessas mesmas caixas, mas vazia, e uma corda e atirou ambos a Markus.
- Agora prende-a ? sela do meu cavalo.
- Eu vou na caixa?! - apontou desmesurado.
- …preferes ficar aqui? - amea?ou a mulher, no que de seguida, o cinismo tomou forma ao seus l?bios sabendo perfeitamente que ele acederia ? sua ordem.
Markus ainda hesitou ao principio mas l? o executou de uma forma trapalhona e demorada. Assim todos postos, partiram. Um Markus saltit?o, devido aos v?rios sobressaltos no caminho, come?ava a arrepender-se de ter mergulhado na m?gica retrete. Se isto era o mundo folk metal, ent?o era muito mais duro que imaginava.
CAP?TULO 3
O Lamento que veio em Fogo
O destino desconhecido s? prolongava o sofrimento de Markus que j? estava farto de ser apelidado de “Frutinha” pelas v?rias caravanas que passavam. O terreno irregular da viagem contribu?a para o efeito pois as n?degas estavam inchadas e as r?tulas dos joelhos cimentadas devido ? falta de espa?o. O nariz pingava por calor e os seus olhos pareciam uma estrutura enraizada de um carvalho. Mas apesar de tudo isto, conseguia apreciar rituais estranhos e at? um campo de flores cujo p?len azul evaporava-se no c?u.
Por breves momentos, sentiu-se bem, n?o por causa destas vis?es em particular, mas porque um homem s? pode aguentar a bexiga at? determinado ponto.
O escurecer foi anunciado por um mocho que gra?as a um tom baixo e quase impercept?vel, provocava uma reac??o tremeliquenta em toda a flora em redor. Podia ser efeito das sete luas que cobriam o c?u desaforadamente ?s estrelas ou todo um ciclo de natureza que provavelmente levaria anos para Markus assimilar. A noite era quase t?o clara como o dia e o mais interessante para ele, era sem d?vida o facto de seis luas formarem um c?rculo e a restante no meio. Em qualquer outro dia seria um olho, mas o seu subconsciente sedento de positivismo deu forma carnal ? imagem de um seio cujo mamilo chamava-lhe pelo nome.
- D?-me leitinho - murmurava ele com um sorriso maroto.
Contudo, toda a r?stia de conforto existente no seu corpo desvaneceu logo de seguida quando uma paragem brusca atira-lhe de encontro ao rabo do cavalo. Tinham parado para acampar mas isso n?o o fez ficar mais aliviado pois o seu nariz sangrava abundantemente. O ?dio tomou-lhe conta da alma e estava definitivamente mais zangado desde que a Maria “Ranheta” lhe roubou o taparwer do almo?o no liceu.
- Salva essa energia para acamparmos se n?o queres morrer de frio. - antecipou a mulher. Segurou nas r?deas do cavalo e conduziu-o para debaixo de uns ramos planos que sustinham a neve.
Markus ainda permaneceu inerte no frio com a raiva a acumular-se. Mas ponderou na esperan?a que ela tinha considerado o seu estado, que a paragem foi subliminar de uma boa ac??o. Juntou-se ent?o resignado…
- Aqui tens. - atirou a mulher um saco aos p?s de Markus - Tu ficas aqui a fazer a tenda enquanto vou apanhar lenha para a fogueira…e n?o te atrevas a tentar fugir no meu cavalo, acredita que te arrepender?s.
E assim fez o sueco. Se o amarramento da caixa na sela foi em tudo menos bem executada, ent?o a tenda parecia o escarro de Hades. Era mais quadrado que triangular, com linhas irregulares, mas s?lido o suficiente e s? isso lhe importava. Sentou-se com uma manta ? volta do torso e observou um movimento em massa na nascente gelada. Era uma matilha de lobos-lebre cujos focinhos achatados era mais bizarro que a mistura de esp?cies. As patas traseiras de lebre eram desproporcionais ao contrapeso frontal do lobo, o que provocava um bater de queixos no gelo sempre que saltavam. Pormenores de uma esp?cie desprovida de intelig?ncia evolucional que fazia Markus contorcer-se de riso.
Finalmente, ap?s v?rios suspiros, a mulher regressa com a lenha e forma um c?rculo de fogueira. Da sacola na sela do cavalo retira uma flauta com a qual come?ou a tocar. As notas eram estranhamente agudas e pouco harmoniosas. Markus depressa percebeu que aquilo n?o era uma cantiga mas sim chamamento de pequenas f?nix que depressa os bombeou com excrementos em fogo. Por sorte ou destreza enigm?tica, todos aterraram na lenha o que depressa ateou um fogo.
- N?o deixes morrer a fogueira. - levantou-se e partiu mais uma vez mas de arco e flecha.
Ia obviamente ca?ar e Markus regozijava-se da mulher fazer todo o trabalho. Era a vida com que ele sempre sonhou. Contente, aterrou com as m?os a apararem a cabe?a e fomentou todo o tipo de planos para se tornar um guerreiro. Tinha de o conseguir, mesmo que para isso tivesse de come?ar como simples mo?o de est?bulos. Com a for?a an?mica no auge, retornou ? sua posi??o original por impulso. ? sua frente encontrou uma cria lobo-lebre a olhar para ele. Pelos olhos percebia que estaria a chorar pois perdeu-se da matilha. Markus teve pena e tentou fazer festas ao animal que recuava timidamente. Ap?s algumas tentativas conseguiu ser bem sucedido. Esta sentindo-se minimamente segura, retornou o afecto lambendo-lhe a m?o.
- Queres ?gua? - sorriu delicadamente. Virou-se para o interior da tenda para buscar a botija de ?gua da mulher e deitou uma pequena quantidade na palma da m?o. A cria deu um saltinho em frente…at? que uma flecha violentamente penetrou-lhe a cabe?a. Os olhos meigos continuavam intactos mas a cabe?a parecia esvaziar-se…Markus estava em choque. E assim ficou durante muito tempo, assistindo involuntariamente ao esfolar, assar e comer daquela doce criatura pela mulher. Deu por encerrada a noite e pousou o resto da carne na m?o que permanecia im?vel de Markus.
- Dormes c? fora. - foram as ?ltimas palavras da mulher antes de entrar na tenda e fech?-la.
Markus recomp?s-se muito lentamente. Cada dentada na carne era uma l?grima que lhe corria na face. Deitou-se no manto em posi??o fetal e olhou para as labaredas. Sentia que era a ?nica coisa no mundo com quem podia contar no momento. Mas at? essas, morreram pouco depois.